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09 de Fevereiro de 2012
MÃE SABE MAIS. SERÁ? - Dora Lorch

Confira o artigo da psicóloga Dora Lorch - MÃE SABE MAIS. SERÁ?

 

 

Enrolados

Vi encantada o filme "Enrolados". Achei muito bem caracterizado o humor adolescente,  em especial a cena em que Rapunzel finalmente sai da torre do castelo: ela oscila entre feliz e amedrontada com os ditos de sua mãe de que não será capaz de se virar sozinha; fica entre eufórica  pela liberdade recém adquirida e o receio de que sua  mãe ficaria arrasada com sua independência.

Mas o que mais me chamou a atenção é a música que diz : sua mãe sabe mais. Isso mesmo,  sua mãe sabe mais sobre você do que você mesma.  Fiquei pensando sobre isso e nos muitos casos que atendi e que acompanhei onde os pais interferiram definitivamente na vida dos filhos, na escolha profissional, nos relacionamentos afetivos.

Será que os pais sabem mesmo o que é melhor para seus filhos? Será que a intuição materna é tão boa assim?

Lembro do caso de uma mãe que insistiu para que a filha não fizesse biologia porque isso não era profissão, profissão mesmo era ser advogada, médica, contadora. E impôs pela força do dinheiro, sua vontade. Moral da história, a menina fez a faculdade que a mãe escolheu, se formou e depois de alguns poucos anos largou a profissão. Neste meio tempo, a biologia virou uma profissão das mais reconhecidas com o seqüenciamento dos DNA. As coisas mudaram, e ninguém tinha como prever esta reviravolta, nem a mãe prestimosa.

Porém, mais nefasto do que escolher a profissão, que de uma forma ou de outra podemos mudar, é a intromissão nos assuntos afetivos.

José era um bom menino, inseguro como os adolescentes costumam ser, com receio de não ser amado, de não ser aceito, de não dar certo, com uma mãe possessiva e autoritária,  que só aumentava sua insegurança. Ela tinha certeza que sabia o que era melhor para ele.

Quando José se apaixonou, a mãe fez de tudo para que ele deixasse “aquela mulher” que com certeza não ia lhe fazer bem.

Como Rapunzel, ele se imaginou fugindo com a moça, vivendo do seu trabalho. Mas teve medo de arriscar, porque sabia que teria que acabar a faculdade, estudar no exterior, e isso dependia da boa vontade dos pais. Como Rapunzel ele oscilou entre obedecer e seguir sua vontade, entre a sua percepção da vida e a experiência da sua mãe.

Como filho obediente que era, telefonou para a menina, com a mãe do lado, e disse tudo o que a  mãe lhe recomendara. Chorou muito depois, mas a mãe lhe garantiu que isso passaria.

Ao longo dos anos namorou outras meninas ao gosto da mãe, mas nenhuma despertou paixão. Afinal o que ele queria numa mulher e o que sua mãe desejava eram coisas bem diferentes!

Até que a mãe morreu. E desta coisas da vida, re-encontrou a tal garota, agora mulher, com filhas adultas, ele solteiro, ela divorciada. Numa conversa informal, os sentimentos foram crescendo, a paixão reacendeu.

José tem certeza que ela é sua alma gêmea. Sua mãe acertara em muitas coisas, mas errara na avaliação do amor dos dois.

Então quer dizer que intuição materna não tem valor?

Tem sim. Intuição é um conjunto de aspectos que as pessoas sentem, mas não conseguem decodificar, e por isso mesmo é definida como sensação. Sabe aquela pessoa que foi te visitar e você “intuiu” que ela não se sentiu à vontade? Não seria porque ela sentou na beiradinha da cadeira, com a bolsa no colo, pouco falou e só olhava para a porta? Estes detalhes passam despercebidos, ou seja, há sinais visíveis, só que eles não ficam no consciente.

As mães que olham seus filhos, costumam acertar nos sentimentos que os filhos estão vivenciando, ao avaliar se determinado fato irá fazê-los sofrer, ou se  lhe trará alegrias. Elas em geral acertam no potencial dos filhos,mas é bom lembrar que ao longo da vida nós desenvolvemos habilidades e características que são importantes, porém não há como prever quais.

Quero enfatizar aqui a importância dos filhos ouvirem as histórias de vida da família: pais, avós, tios, porque muito se aprende nestas conversas. Mas é bom lembrar que uma coisa é a teoria outra é a prática. Ninguém aprende a tomar sorvete teoricamente, é preciso viver certas experiências.

No tocante às antecipações do futuro,  não há intuição, há opinião e opiniões são falíveis.

O  problema é que os  filhos ouvem o que os pais dizem como se fossem ordens. Só se dão conta que aquela fala era um palpite quando é tarde demais…

 

 

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Dora Lorch

Psicóloga clínica, mestre em psicologia pela PUC-SP. Além da clínica, trabalhou em vários projetos sociais como "Associação Novas Trilhas" e "Sou da Paz", melhorando o relacionamento entre pais e filhos. Escreveu um livro para crianças com Ruth Rocha e um para adultos chamado "Como educar sem usar a violência". É sócia da Delfos Prevenção em Psicologia e sócia fundadora da OSCIP Fábrica do Futuro, onde coordena o projeto Florescer da Fábrica em parceria com a Liga Solidária.

 

Conheça o blog da Dora Lorch - aqui

No Twitter - @doralorch

 


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