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Notícias
27 de Novembro de 2012
O lento caminhar da vida

Deparo-me  com mães desesperadas querendo achar uma saída – e rápida- para os problemas de relacionamento com seus filhos. Sei que os problemas muitas vezes são urgentes, mas na maioria das vezes nós psicólogos só conseguimos ajudar na direção, não na solução. Isso quer dizer que podemos apoiar, orientar, clarear, pensar junto, mas o fazer, e o tempo, não dependem de nós.

A nós, pais educadores, adultos, cabe os exemplos, a base a partir da qual eles irão construir suas personalidades e valores.

Por isso é preciso paciência quando pedimos as coisas, e tolerância quando avaliamos o que foi pedido; nem sempre uma criança pequena consegue fazer tão bem feito quanto um adulto que tem prática de anos fazendo aquela tarefa.  Se, nós que somos grandes e sabidos, não sabemos esperar, como podemos querer que as crianças sejam calmas, que tenham persistência para ir adquirindo habilidades aos poucos?

Vamos pensar em uma criança que não consegue cuidar de suas coisas, que deixa os brinquedos jogados pela casa, será que gritar com ela é suficiente para que ela mantenha tudo arrumado? Será que ela sabe como manter seus pertences em ordem? Pois é, há poucos dias atrás uma mãe colocou seu filho de 12 anos para fora de casa, com uma mala e um colchão, porque ele deixava a casa desarrumada. Uma mulher vendo o menino na chuva e no frio o recolheu.

Resolvi procurar a notícia na internet, e descobri muitos outros casos iguais: pré adolescentes que foram impedidos de voltar para casa porque voltaram tarde, porque não cumpriram com uma determinação dos pais, porque responderam…. Meninos que voltavam das baladas e dormiam no tapete de entrada porque a porta estava trancada.

O que será que estes pais pensaram para tomar atitude tão extremada?

Será que não gostam de seus filhos?

Creio que eles estejam desesperados para serem obedecidos, mais desesperados com a obediência. do que com seus filhos. E isso é importante: há um momento em que a briga entre pais e filhos vira um cabo de guerra para saber quem pode mais, e nestas horas quem sofre é o mais fraco, no caso as crianças ou pré-adolescentes, que não tem como se sustentar, como se cuidar.

Os pais ficam tão obcecados por serem respeitados e obedecidos que se esquecem da sua missão mais importante: formar, cuidar, apoiar. Ficam preocupados com o que os vizinhos vão pensar. Mas as vezes é mais importante ceder do que impor.

Ricardinho era um menino comum, mas como muitos na adolescência ficou chato, desobedecia, sumia. Os pais, muito rígidos ficaram desesperados com os riscos que ele corria, com a possibilidade dele se meter em encrenca. Tantas fez, que os pais cansaram e o expulsaram de casa. Para onde vai um menino que está acostumado a ser cuidado numa hora destas? Para as asas de alguém que faça este serviço por ele, e Ricardo foi parar no meio da favela, no tráfico, que o acolheu como um dos seus. Durante um ano Ricardo viveu sem ver os pais, e por sorte não morreu, nem foi ferido. Neste meio tempo a mãe se desesperou, e ia com constância à favela tentar ver o filho. Este movimento de tentar trazê-lo para perto deu resultado, ele voltou.

Pergunto, o que os pais esperam quando expulsam seus filhos de casa? Um milagre: esperam que eles tenham discernimento, que achem uma saída honrosa, que deem valor a tudo o que os pais proporcionam, que aprendam a importância de estudar e  se tornem cidadãos de bem.

Como conseguir isso se os pais não tem o mesmo discernimento? O que pensar de um pai que o coloca  na rua só porque ele respondeu?

Isso sem falar nos que acham que seus filhos devem “se virar” para conseguir o que eles pais estão pedindo. Sem apoio, os filhos aprendem que o mundo que vale é o do poder, o do dinheiro, e que precisam de dinheiro para sobreviver. Se não conseguem ganhar, vão tentar tirar a força. Para além da sobrevivência, a delinquência pretende “resgatar” o que lhe era de direto e foi tirado, como o afeto, a proteção, o carinho, que toda criança merece.

Sem afeto, sem respeito, sem apoio, roubar é mais fácil do que batalhar um mês inteiro para receber um salário.

Agora, cá entre nós, quem vai lhe visitar, ligar para saber como você está, e segurar sua mão quando você estiver doente? Seu vizinho?

 Conheça a Coleção "Os medos que eu tenho" de Ruth Rocha e Dora Lorch

Conheça também a série "As coisas que eu gosto"

Dora Lorch

Psicóloga clínica, mestre em psicologia pela PUC-SP. Além da clínica, trabalhou em vários projetos sociais como "Associação Novas Trilhas" e "Sou da Paz", melhorando o relacionamento entre pais e filhos. Escreveu um livro para crianças com Ruth Rocha e um para adultos chamado "Como educar sem usar a violência". É sócia da Delfos Prevenção em Psicologia e sócia fundadora da OSCIP Fábrica do Futuro, onde coordena o projeto Florescer da Fábrica em parceria com a Liga Solidária.

Conheça o blog da Dora Lorch - aqui

No Twitter - @doralorch

 


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