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Notícias
13 de Dezembro de 2012
Que raiva!!

Apesar das religiões abominarem certos sentimentos tão humanos como a raiva ou a inveja eles fazem parte das nossas vidas. Quem é que nunca sentiu algo assim?
Às vezes, na tentativa de esconder sentimentos tão potentes acabamos por deixá-los livre para escapar no momento menos oportuno.
Porém como fazer para conseguir lidar com a raiva?

A histórias que eu quero contar hoje é sobre uma mocinha, a Antônia, bonitinha, certinha, inteligente, descolada, que achava que por fazer tudo certo, seria reconhecida na vida. Mas isso não acontecia, e em todos os lugares por onde ela passava, só deixava um rastro de desafetos e mau entendidos.
Antônia era muito bem intencionada, e achava que as decisões deveriam ser tomadas em grupo, mas na prática, as decisões são tomadas de cima para baixo. E ela reclamava. Se alguém falava algo, Antônia respondia, em nome do grupo é verdade, mas como só ela punha a cara a tapa, era identificada como alguém que está sempre insatisfeita, por isso passou a ser “a chata”.
Então, um belo dia ela cansou de falar pelo grupo, e percebeu que tinha raiva das pessoas que trabalhavam com ela. Mais que isso, tinha chegado a um ponto em que não queria mais defender ninguém, saber o que os outros pensavam ou achavam: só queria fazer seu trabalho certinho, e mostrar que era mais eficiente do que os demais.

E foi assim que ela se meteu na maior encrenca da vida dela: haveria um sorteio para ver quem iria folgar nos feriados de natal e ano novo, e Antônia já tinha conquistado uma destas folgas porque trabalhara em emendas de feriados anteriores. Os demais estavam furiosos porque a empresa tinha combinado compensar as horas extras com folga que o funcionário escolhesse. Marcaram uma reunião e reclamaram o combinado; e Antônia, que não tinha nada a ver com isso, já que não era chefia, portanto não tinha voz, e não fazia parte do rodízio dos que ficariam trabalhando comentou que já tinha passagem marcada para o fim do ano. O grupo ferveu em cima dela, e a considerou traíra. A fala mudou a direção da reclamação: ao invés de ser contra a empresa, passou a ser contra ela.
Antônia possessa falou que tinha direito sim, que tinha trabalhado quando os demais estavam folgando e que fazia questão da licença. Todos ficaram contra ela. Desapontada, Antônia não entendia o que tinha acontecido.

Por trás de um discurso de igualdade, de coleguismo e de vamos resolver as coisas em grupo, se escondia alguém muito competitivo, que queria mostrar a ferro e fogo que era melhor do que seus iguais. Este sentimento foi crescendo porque ela, tão boazinha, ficava calada na esperança que os colegas e sua chefia reconhecessem seu esforço e sua dedicação. Como isso nunca acontecia, um belo dia explodiu. Na explosão falou muitas coisas importantes que o grupo deveria ter ouvido, mas com tanta mágoa e dor que só ouviram sua raiva, suas acusações. Se nós queremos reconhecimento e não temos, talvez sejamos nós que estamos fazendo a coisa errada, ou esperando algo que não vamos alcançar. Por outro lado, perceber que os outros estão recebendo aquilo que nós achamos que merecemos faz com que a inveja floresça.
Às vezes engolimos tanto, que explodimos com tanto ódio, que os outros não ouvem o que estamos falando mas sentem nossa raiva. Isso não é falar a verdade, é jogar para fora tudo o que se está sentindo, e ninguém tem nada a ver com isso. Ser adulto é perceber o que se passa, elaborar e decidir o que dizer, o que calar. Falar a verdade não quer dizer ofender os outros. Nem culpar os outros por aquilo que nós não conseguimos.

É bom lembrar que a toda ação, corresponde uma reação contrária, que só na física é proporcional – na vida cada um reage conforme sente, conforme quer, o que significa que pode ser com violência maior do que o nosso pronunciamento.
Antônia, mais uma vez foi mau interpretada. Não conseguia se fazer entender. Não conseguiu entender o que ela queria, nem como viabilizar isso.
A panela de pressão não explode porque tem duas válvulas de segurança. Antônia precisa conseguir uma válvula de segurança para os sentimentos dela. Nestes casos, o melhor é ir falando aos poucos o que nos desagrada, enquanto o problema é pequeno e tem solução, enquanto os sentimentos são administráveis. Para conseguir falar e ser ouvido, é preciso clarear dentro da gente o que estamos sentindo, porque estamos sentindo, e depois então falar.

 

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Dora Lorch

Psicóloga clínica, mestre em psicologia pela PUC-SP. Além da clínica, trabalhou em vários projetos sociais como "Associação Novas Trilhas" e "Sou da Paz", melhorando o relacionamento entre pais e filhos. Escreveu um livro para crianças com Ruth Rocha e um para adultos chamado "Como educar sem usar a violência". É sócia da Delfos Prevenção em Psicologia e sócia fundadora da OSCIP Fábrica do Futuro, onde coordena o projeto Florescer da Fábrica em parceria com a Liga Solidária.

Conheça o blog da Dora Lorch - aqui

No Twitter - @doralorch

 

 


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